Desapega, se liberta! Muda o rumo, vai por outro caminho…Deixa pra trás tudo aquilo que tira seu sorriso, seu brilho no olhar… O tempo passa rápido demais pra ficar parado no que te machuca.
Corro e me escondo nos escuros da minha alma. Procuro preencher as lacunas que faltam num “quem sou eu” mas isso se torna impossível, quando nem mesmo sei ser. Só sei que sou. Mas eu sou o quê? Enquanto as estrelas brilham no céu, eu sou escuro. No canto dos rouxinóis eu me faço silêncio. E quando não há som, sou grito.
Quando eu era criança e corria pelas ruas, descalça, eu não tinha medo de cortar os meus pés. As minhas cicatrizes eram medalhas que mostravam o quanto eu fazia arte, era arte. Feridas essas que logo cicatrizavam. Mas hoje o que tenho não são cortes nos pés por correr descalça e nem nos joelhos por conta dos tombos que levei, mas são no coração, que hoje nada mais é do que cacos. E na alma, que se entregou a prostração e se tornou vazio, escuro, abismo.
Hoje me vejo como um zumbi comedor de almas. Tudo aquilo que eu me aproximo morre, se esvai. As flores sobre a mesa não sobrevivem ao meu toque e morrem. Uma poça de água na rua, seca ao passar da minha sombra. As estrelas no céu viram poeira quando eu me abrigo sob elas.
Eu não tenho cartas nas mangas, eu fujo de mim, mas não fujo de tudo que faço. Sou incapaz. Desconheço o meu coração, essa imensidão vermelha, que nada mais é do que um músculo para bombear sangue mas esquece suas funções naturais e quer sentir. Trago nele todas as dores do mundo. Meu corpo escuro entra em contraste com a noite e eu adormeço. Nem nos sonhos eu sou capaz de esquecer os meus erros. Meu descanso é interrompido pelo ar pesado que corre pelo meu quarto. Num segundo e estou correndo. Um pantanal sujo e enlameado a minha frente. Na maioria das vezes ele chega a parecer com um labirinto. Me perco. A areia movediça prende os meus pés e eu afundo. Afundo, afundo. Todas as noites é assim. A tormenta vem quando durmo, os pesadelos não cessam, e ainda não descobri quem sou, o que sou. Quando estou acordada sonho, quando durmo tornam a aparecer o pantanal, a lama, a areia movediça e o afundar.
Acordo. Tudo o que vejo é escuro. Sempre escuro.
Eu procuro fugir. Correr. Me esconder. Mas por que me esconder se nem mesmo me acho?
Dos verbos que aprendi na escola, o único que não sei conjugar no presente é o verbo “ser”. Meu tempo verbal é outro. Pretérito imperfeito. Eu era. Eu era amor, eu era azul. Hoje eu não sei ser.
Fujo.
Embriaguei-me de melancolia.
E escrevi meus melhores versos.
Me provocas lágrima,
Me aparenta ser doce como mel
Mel-anco-lia.
Eu lia mel.
E a dor, a dor que me provocas,
É bonita demais para virar só tristeza.
Elas riscam o escuro céu com seu brilho. Caindo, caindo, caindo. Despencando com total elegância. Procuram por um lugar na terra para afundarem, para descansar em paz. As estrelas caem do céu, pois até as estrelas morrem, até as mais brilhantes. Dizem que se você olhar uma estrela caindo, você pode fazer um pedido… E a estrela morta se transforma na realização desse pedido. Os seres humanos se aproveitam até da morte de uma estrela, tudo soa como lucro. As estrelas caem do céu em busca de um lugar florido. Caem do céu a procura de um cantinho onde não podem mais ser apontadas… Riscam o céu com seu brilho, e se apagam na terra. Até as estrelas mais bonitas morrem, como sonhos não realizados. Morrem como qualquer pessoa. Morrem como qualquer animal. Morrem… Morrem… Todos morrem.
Até as estrelas morrem, e eu que pensei que elas duravam por toda a eternidade.
O nosso amor morreu, e eu entendo, tudo morre. Se até as estrelas morrem, porque o amor duraria para sempre?!
”Não, não me machuque tanto. Eu sei compreender uma porção de vezes, mas uma hora eu canso. E o meu desprezo consegue ser tão forte quanto o meu amor, não queira saber.”
Assim como viver, sentir também cansa. E eu estou cansado de sentir, o coração está cansado.
Tornar o amor real é expulsá-lo de você, pra que ele possa ser de alguém.